Introdução
Você já percebeu como, em dias de estresse intenso, o doce parece um convite irresistível? Ou como, em momentos de ansiedade, o salgado surge como a escolha mais tentadora? Essa relação entre emoções e preferências alimentares é conhecida como paladar emocional.
Segundo a literatura científica, o paladar emocional não é apenas uma questão de gosto pessoal, mas uma resposta fisiológica, psicológica e cultural do organismo frente a situações de estresse, ansiedade ou sobrecarga emocional (Adam & Epel, 2007; Macht, 2008).
Compreender esse mecanismo permite interpretar nossas escolhas com mais consciência e adotar estratégias que favoreçam o bem-estar a longo prazo.
Neste artigo, você vai entender:
- O que a ciência já sabe sobre o paladar emocional;
- Por que o estresse costuma aumentar a busca por doces e a ansiedade por salgados;
- Os impactos dessas escolhas quando se tornam frequentes;
- Estratégias práticas e baseadas em evidências para lidar com a fome emocional sem culpa.
O que dizem os estudos científicos
Estresse crônico e o desejo por doces
Pesquisas conduzidas pelo Garvan Institute of Medical Research, na Austrália, demonstraram que o estresse crônico, especialmente quando combinado a dietas hipercalóricas, pode reduzir a sensibilidade do sistema cerebral de recompensa. Isso favorece a busca por alimentos ricos em açúcar como forma de compensação emocional (Garvan Institute; divulg. ScienceDaily, 2023).
Do ponto de vista neuroquímico, o consumo de açúcar está associado à liberação de dopamina e serotonina, neurotransmissores relacionados à sensação imediata de prazer e alívio emocional. Especialistas alertam, no entanto, que esse efeito é transitório e não resolve a causa do estresse (Harvard Health Publishing, 2022; Healthline, 2023).
Segundo a nutricionista e pesquisadora Dr. Judith J. Wurtman, do MIT, “alimentos ricos em carboidratos podem gerar conforto momentâneo, mas o consumo frequente como estratégia emocional pode reforçar padrões de dependência alimentar”.

O consumo de doces pode estar associado a momentos de conforto emocional, especialmente em situações de estresse.
Ansiedade e preferência pelo salgado
Um estudo populacional com mais de 16 mil adultos, publicado na BMC Medicine, observou associação entre maior consumo de sal adicionado às refeições e aumento de sintomas emocionais, incluindo ansiedade. Os autores ressaltam que se trata de associação observacional, não de causalidade direta (BMC Medicine, 2025).
Entre universitários brasileiros, pesquisas indicaram que níveis mais elevados de ansiedade estavam relacionados ao aumento do desejo por alimentos altamente palatáveis, tanto doces quanto salgados, especialmente em contextos de pressão acadêmica (Appetite, 2019).
A psicóloga da alimentação Dr. Susan Albers, da Cleveland Clinic, explica que sabores intensos — como o salgado — podem funcionar como um estímulo sensorial forte, ajudando temporariamente a desviar o foco de estados emocionais desconfortáveis.

Emoções como ansiedade e estresse podem estar associadas a escolhas alimentares automáticas no dia a dia.
Relação entre estresse e desregulação alimentar
Evidências indicam que níveis elevados de estresse estão associados à redução da autorregulação alimentar, favorecendo o consumo automático de alimentos ultraprocessados (Appetite, 2021).
Em mulheres brasileiras, o desejo por doces durante períodos de estresse foi associado a alterações hormonais envolvendo cortisol, leptina e grelina, hormônios relacionados ao apetite e à saciedade (Nutrition, 2014).
Os autores destacam que esses mecanismos variam entre indivíduos e são influenciados por fatores genéticos, emocionais e ambientais.
Fatores culturais e sociais
Um estudo comparativo entre Brasil e Espanha demonstrou que brasileiros tendem a apresentar respostas emocionais mais intensas aos alimentos, reforçando o papel da cultura na formação do paladar emocional (Food Quality and Preference, 2023).
Outra pesquisa nacional identificou que pessoas com maior nível de ansiedade percebiam alimentos salgados como mais prazerosos, mesmo sem aumento significativo do consumo real — sugerindo um componente perceptivo e emocional importante (Physiology & Behavior, 2023).
Mecanismos por trás do paladar emocional
| Aspecto | Doce no estresse | Salgado na ansiedade |
|---|---|---|
| Hormonal | Elevação do cortisol pode aumentar o desejo por alimentos que estimulam dopamina e serotonina (Adam & Epel, 2007). | Ativação do sistema nervoso autônomo pode intensificar a busca por estímulos sensoriais intensos. |
| Psicológico | Doces funcionam como recompensa imediata e evocam memórias de conforto. | Salgados oferecem distração pelo sabor marcante e textura crocante. |
| Cultural | Associado a celebrações, afeto e infância. | Ligado a encontros sociais e momentos de descontração. |
Impactos do paladar emocional a longo prazo
Buscar doce ou salgado em momentos de estresse ou ansiedade é uma resposta humana natural. No entanto, quando esse padrão se torna frequente, pode impactar o bem-estar físico e emocional, especialmente se associado a alimentos ultraprocessados.
Açúcar em excesso (especialmente refinado):
- Oscilações frequentes de energia e glicemia;
- Maior sensação de cansaço e irritabilidade;
- Reforço do ciclo de busca por alívio rápido via comida (Harvard Health Publishing, 2022).
Sal em excesso:
- Retenção hídrica;
- Potencial impacto na pressão arterial em pessoas predispostas;
- Associação com maior sensibilidade emocional em alguns perfis (BMC Medicine, 2025).
Checklist: como identificar o paladar emocional
- O desejo surge de forma repentina, sem fome física clara;
- Comer traz alívio emocional imediato;
- Após comer, surge desconforto ou arrependimento;
- O padrão se repete após dias estressantes;
- Certos alimentos estão associados a consolo emocional.
Responder “sim” a vários itens pode indicar ativação do paladar emocional.
Estratégias práticas para lidar com o paladar emocional
1. Desenvolva consciência alimentar
Antes de comer, pergunte-se:
“Estou com fome física ou buscando aliviar uma emoção?”
Essa pausa simples já reduz decisões automáticas (Macht, 2008).
2. Faça substituições inteligentes
Troque doces muito açucarados por opções naturalmente adocicadas, como frutas frescas, tâmaras ou chocolate amargo. No caso dos salgados, prefira castanhas sem sal ou pipoca caseira.
| Vontade | Opção tradicional | Substituição inteligente |
|---|---|---|
| Doce | Bolo recheado | Uvas-passas, damasco seco |
| Salgado | Batata frita industrial | Batata assada no forno |
| Doce | Refrigerante | Suco natural sem açúcar |
| Salgado | Salgadinho ultraprocessado | Mix de castanhas |

Momentos de pausa e conforto podem influenciar escolhas alimentares, especialmente em contextos emocionais.
3. Regule emoções fora da comida
- Caminhadas leves;
- Exercícios respiratórios;
- Escrita terapêutica;
- Práticas como yoga ou meditação.
4. Cuide da rotina
Sono adequado e refeições regulares ajudam a reduzir picos de estresse e impulsividade alimentar.
5. Organize o ambiente
Facilite o acesso a alimentos naturais e reduza a disponibilidade de ultraprocessados.
6. Busque apoio profissional
Nutricionistas e psicólogos podem ajudar a desenvolver estratégias personalizadas, especialmente quando a fome emocional é frequente ou causa sofrimento.
Autocuidado além da comida
O paladar emocional revela que, muitas vezes, buscamos conforto, não apenas alimento. Estratégias complementares incluem:
- Pausas conscientes durante o trabalho;
- Hobbies relaxantes;
- Conexões sociais;
- Rituais noturnos de relaxamento.
Conclusão
O paladar emocional faz parte da experiência humana. Buscar doce no estresse ou salgado na ansiedade não é falha moral, mas uma resposta natural do organismo.
O cuidado está no excesso e na repetição automática.
Ao reconhecer gatilhos emocionais, adotar substituições conscientes e fortalecer práticas de autocuidado, é possível reduzir a dependência da comida como regulador emocional e construir uma relação mais equilibrada com a alimentação.
Referências
Adam, T. C., & Epel, E. S. (2007). Stress, eating and the reward system. Physiology & Behavior, 91(4), 449–458.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17543357/
Appetite. (2019). Emotional eating, anxiety and food cravings among university students.
https://www.sciencedirect.com/journal/appetite
Appetite. (2021). Stress and dysregulated eating behavior.
https://www.sciencedirect.com/journal/appetite
BMC Medicine. (2025). Salt intake and mental health outcomes.
https://bmcmedicine.biomedcentral.com/
BMC Public Health. (2025). Ultra-processed food consumption and emotional symptoms in students.
https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/
Food Quality and Preference. (2023). Cross-cultural differences in emotional responses to food.
https://www.sciencedirect.com/journal/food-quality-and-preference
Harvard Health Publishing. (2022). Mindful eating and emotional eating.
https://www.health.harvard.edu/
Healthline. (2023). Sugar cravings and brain chemistry.
https://www.healthline.com/
Macht, M. (2008). How emotions affect eating. Physiology & Behavior, 94(3), 361–369.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18442890/
Nutrition. (2014). Hormonal responses to stress and sweet food cravings.
https://www.sciencedirect.com/journal/nutrition
Physiology & Behavior. (2023). Anxiety and sensory pleasure of salty foods.
https://www.sciencedirect.com/journal/physiology-and-behavior
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Isadora Luz é criadora do blog Viva Serenamente, onde compartilha reflexões e práticas para uma vida mais leve e equilibrada. Apaixonada por bem-estar, organização e autoconhecimento, escreve de forma acessível e inspiradora, ajudando leitores a encontrarem caminhos mais conscientes no dia a dia.
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